quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dom Quixote, Belarofonte e a Quimera

Nada como um dia depois do outro, ou meses...



Antes de continuar e propor novas reflexões à sua mente permita-me manifestar que a ausência de novas postagens nesse período ocorreu por conta de dois motivos, ambos importantes para a compreensão do que vem a seguir.



Um dos motivos, mas que não seria por si só suficiente para minha ausência foi o de precisar me dedicar à criação do site institucional da empresa da qual sou responsável pela gestão de recursos, a Blue Compass Capital, que exigiu muitas horas e dias de trabalho de todos os envolvidos, mas que pela repercussão, valeu cada minuto de dedicação minha e do meu sócio para criar a idéia central e os textos, e da empresa de design que aportou a belíssima parte gráfica. Finda a tarefa, tenho mais tempo para retomar o blog. Porém...



A razão superior para minha ausência responde ao mesmo motivo da criação deste blog em 24 de Outubro de 2008. O quê, a data não lhe diz nada? Vou refrescar nossa memória com a citação de uma notícia da "Agência Estado" naquela mesma data, às 18h55 daquela animada tarde:



“Ibovespa cai 6,91% e acumula perda de 50% no ano



PAULA LAIERA - Bovespa voltou a ser fortemente afetada hoje pela significativa deterioração dos mercados financeiros globais, em meio a uma nova onda de apreensão com o rumo da economia mundial. Diante do forte processo de desmonte de posições ao redor do mundo, as ações brasileiras não escaparam das vendas.



O Ibovespa encerrou o dia em queda de 6,91%, aos 31.481,55 pontos - o menor patamar desde o fechamento do dia 25 de novembro de 2005 (31.357,55). Durante o dia, oscilou da mínima de 30.788 pontos (-8,96%) à máxima de 33.809 pontos (-0,03%). O volume financeiro totalizou R$ 4,472 bilhões. Na semana, o Ibovespa acumulou uma perda de 13,50%. No mês, a queda alcança 36,45% e, no ano, 50,72%.



No aniversário de 79 anos da Quinta-feira Negra que marcou o início da fissura que engoliria Wall Street em 1929, os mercados internacionais tiveram um dia de perdas. Na Ásia, todas as bolsas regionais fecharam no território negativo. A de Tóquio caiu 9,6%, para o seu menor nível desde abril de 2003. Na Europa, a Bolsa de Londres caiu 5%, refletindo a notícia de que o Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido caiu 0,5% no terceiro trimestre - a primeira contração desde a registrada no segundo trimestre de 1992.



Em Wall Street, pela primeira vez em pelo menos cinco anos, os índices futuros de ações tiveram suas operações interrompidas após atingirem o limite diário de queda. A paralisação ocorreu logo cedo, por volta das 8 horas (de Brasília), com o Nasdaq em baixa de 6,76% e o S&P-500 em queda de 6,56%. O Dow Jones futuro foi congelado em queda de 6,3%."
FIM DA NOTÍCIA


Pois é, fico imaginando como ficou sua expressão facial ao ler a notícia acima, deve ter ficado igual a minha, pois ninguém fica neutro diante da descrição do horror pelo qual passavam os mercados financeiros naquele dia.



Enquanto o telefone tocava o dia todo com inúmeras chamadas grávidas de temor e horror, fiquei, em alguns momentos, tentado a ceder aos pensamentos que queriam me arrastar para o "bloco do desespero", que a aquela altura já estava com milhões de foliões atrás do trio elétrico.



Olhei para o céu e só via nuvens cinzas, quase pretas carregadas de energia, castigando com raios e trovões aqueles que insistiam em seguir seu rumo. Quando olhei para o mar (no sentido figurado, pois o único mar que tenho perto do escritório é a MARginal do Rio Pinheiros), as ondas eram tão grandes que davam a impressão de que em breve iriam engolir a valente embarcação que eu comandava.



Recordo de vir à mente a imagem daquele barco pesqueiro no filme "Tempestade Perfeita", e cheguei a me ver naufragando como aquele. Mas por algo fomos dotados de uma mente e da consequente capacidade de refletir, julgar, observar, pensar, e então criar pensamentos que possam opôr-se frente aos que em muitos momentos de nosso dia-a-dia procuram devastar o campo mental. Ainda que não seja motivo dessa postagem, esse "por algo" me permitiu retornar ao conhecimento adquirido durante tantos anos de vida e de mercado financeiro. Então meu estado mental mudou, e ainda que o mercado não tivesse mudado naquele dia, eu tive a certeza que o Norte que me guiava era mais real do que todos os pensamentos de pânico que naquele dia ceifavam muitas mentes e corações ao redor do mundo.



Eis então revelado o leitmotiv (do alemão: motivo condutor) para minha vontade de escrever meus pensamentos aqui, especialmente na noite da sexta-feira sangrenta, como aquele dia ficou conhecido.



Senti-me compelido a apresentar aos amigos e conhecidos, os pensamentos que pela forte lógica que possuíam, poderiam ajudar muitos dos que passavam pelas mesmas lutas que eu. E assim foi que escrevi intensamente por muitas semanas, recordando aos leitores sobre o que estava além da superfície dos fatos materiais e psicológicos do mercado financeiro, ainda que perante o que o noticiário insistia em proclamar, eu parecesse mais com o Dom Quixote em sua tola luta contra o moinho de vento. Mas...



Aprendi também, e guardo muita gratidão por quem me ensinou, que as grandes ondas e as tempestades SEMPRE passam, e que os bons navegantes sabem confiar no Norte indicado por seus conhecimentos. Foi com essa convicção que naveguei por todos aqueles meses de desesperança. Foi com esse conhecimento que transformei para meus clientes, o caos em uma oportunidade, e ainda acabei realizando um bom registro histórico sobre o que passamos nesse período. Não foi fácil escrever aquilo tudo enquanto a grande maioria corria para o outro lado.



No final, finda a parte aguda da crise, tendo sido evitado o pior e estando o mundo no caminho para a reconstrução pós Tsunami, sinto que fiz o que estava ao meu alcance, e que pelas sinceras manifestações que recebi, fico feliz em me sentir menos Dom Quixote e mais com Belarofonte tendo vencido a Quimera.



Hora de regular a mira para outros aspectos mais comuns ao dia-a-dia de um mercado ordenado (nem tanto ainda), e farei o possível para continuar a colaborar com os amigos leitores no que diz respeito às necessidades de cada um em planejar seus investimentos frente à nova realidade de mercado.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Everlasting Globstopper

Engraçado como as experiências que a vida nos permite planejar, ou ainda, as que não planejamos, mas mesmo assim podem tornar-se um bom campo experimental para nossas reflexões, acabam por ser um tipo de “Everlasting Gobstopper” (ou você não se lembra daquela bala colorida que a pessoa colocava na boca e que nunca acabava, criada pelo sensacional Willy Wonka? Não, então "clica"no título dessa postagem pra você refrescar sua memória). Tudo bem se você não tem idéia do que estou falando, o importante é que você se identifique com essa sensação de aprendizado constante, de preferência quando tomamos gosto pela matéria ensinada.

A matéria em questão é o mercado financeiro em suas evoluções ao longo do tempo, nossa colocação frente a essa realidade e as novas lições aprendidas. Uma ressalva que faço por ter sido necessário incorporá-la à vida para poder seguir aprendendo, é de ter a humildade sincera de quem acredita que sempre pode aprender algo mais.

Pensei muito nas últimas semanas antes de escrever essa postagem, mas penso que a hora é propícia por poder contar, no caso dos leitores/investidores, com as mentes já liberadas dos pensamentos de terror que tivemos que enfrentar bravamente nos últimos 12 meses (ou quase isso).

Se formos reler as postagens anteriores poderíamos construir um gráfico e acompanhar o comportamento do mercado pelo tom das várias conversas que tive com clientes, amigos e pessoas que trabalham nessa área. Tenho certeza que seria um gráfico muito similar ao que o índice da Bolsa de SP realizou.

Essa observação por si só deve ser suficiente para nossas reflexões considerarem o quanto ainda somos subjugados pelos pensamentos, ainda que nossa vontade lute contra essa influência. Também será vital considerar que o mercado financeiro é uma representação cabal e fidedigna do mundo mental que nos interpenetra em todos os campos da vida. Muitos fazem novelas ou escrevem livros a esse respeito, nós não precisamos ir além daqui para comprovar isso.

Como gestor de recursos, especializado em gestão de ativos de renda-variável, sou chamado a opinar sempre sobre o futuro, seja um minuto, um dia ou um ano. É claro que “previsão” é apenas o que o próprio substantivo sugere, mas como muitos querem ganhos fáceis e de preferência rápidos, surgem ouvidos para qualquer tipo delas, e ganham especial atenção aquelas que sugerem um cenário em linha com o que a mente de cada um projetou.

Não apenas pelas postagens em que relatei muitas dessas “consultas”, mas especialmente pelos extraordinários últimos doze meses que vivemos, você pode imaginar que passei por um período de intensa atividade profissional, além de ter sido a primeira vez em que tive que rever em um período tão curto, cada um dos meus conhecimentos financeiros e colocá-los mais uma vez sob a lupa da razão, afim de que eu pudesse contar com a segurança de estar navegando com a ajuda de instrumentos precisos e rigorosamente imantados ao “Norte” que tem me guiado em todos esses anos.

Já falei em outras ocasiões sobre esse Norte, sobre os instrumentos que utilizo para seguir meu rumo e qual tipo de navegação tenho feito. Penso que nesse momento vale a pena reler duas postagens, na verdade a parte I e II de um pensamento que contempla os conceitos que reafirmo
acima.

O bom de escrever e publicar a própria opinião é que além de exercitar a capacidade de criar novos pensamentos, é possível afirmar que em certa altura meu pensamento era tal ou qual, ainda que me reserve o direito, inalienável a cada ser humano, de ir superando minha compreensão sobre todos os aspectos da vida, para o qual recordo o leitor que não se assuste se for observando essa feliz realidade ao longo do tempo em que me acompanha aqui no Blog.

Considero então que nós já passamos pelo pior da crise financeira, não excluindo a alta volatilidade que ainda veremos perpetuar-se no mercado por um bom tempo. Por entender assim, é hora de avaliar o que vivemos nesse período e ver se há alguma nova lição para aprender, ainda que o mercado não tenha voltado aos preços pré-crise.

O panorama que devemos analisar é o seguinte:


O gráfico mostra 12 meses findos hoje, 14 de abril de 2009.

E agora, caros leitores, eu posso pedir para que cada um faça um exercício de reflexão com esse gráfico, levando em conta o que cada um tem aprendido nesse mundo financeiro e delinear algumas das lições dadas nessa aula que ainda nem terminou?

Obviamente que o melhor é se cada um de nós fizer esse movimento mental, para que possamos unir os pontos e aprender, juntos. Se lhe parece bem, volto em alguns dias com as minhas observações. Você, clique no botão "X comentários" abaixo e registre, por favor, sua opinião.

domingo, 15 de março de 2009

Os meteorologistas e o clima financeiro

Não deve ser fácil, eu admito, prever como será o tempo na cidade e as respectivas máximas e mínimas do dia e ainda por cima ter que divulgar isso diariamente, enfrentando o humor da mãe-natureza nessa luta inglória. Pelo menos eu tento recordar que o trabalho deles é de previsão do tempo, o que atenua minha crítica quando comprovo o quão errada estava a previsão para um dia qualquer.

Penso que precisamos ser tolerantes com quaisquer situações na vida que envolva as nossas ou as dificuldades das outras pessoas, mas é certo que a primeira deve cessar quando surge o famoso “abuso”. Difícil é delimitar a fronteira entre um e outro, o que não pretendo fazer hoje.

O Dionísio, amigo meu que a cada dia fica mais interessado em assuntos como o que escrevo aqui, tem ficado um tanto irritado ao comprovar como os economistas mundiais têm errado muito quando se decidem por projetar o comportamento econômico de cada país ou de algum indicador mundial.

Eu disse a ele que as projeções são assim mesmo, o camarada que estuda Economia, aprende a projetar um cenário de acordo com as informações disponíveis na atualidade, sendo obviamente muito difícil controlar cada uma das variáveis que compõem uma situação futura. Resolvi dizer ao Dionísio, de acordo com minha humilde opinião, onde estava o verdadeiro erro, o que lhe causou um misto de frustração e desilusão.

Cada um de nós, atores econômicos de menor ou maior porte, encontrou algum conforto na vida financeira ao olhar uma projeção econômica e imaginar onde estaria quando aquele cenário se realizasse, ou melhor, em que situação ficaria naquele momento futuro em que se materializassem tais previsões. Entendo que daí provém nossas frustrações econômicas, talvez até seja também o motivo para frustrações de qualquer espécie.

Não podemos deixar para os demais a construção da imagem de nosso futuro. O Dionísio ou qualquer um de nós pode e deve delegar às pessoas que são capazes de fazê-lo, o trabalho para a construção da base financeira que pretende alcançar, mas não podemos nunca perder de vista o cenário que cada um de nós deve manter atualizado pelas tantas e claras informações que nossa mente capta sobre a realidade de nossa vida e de nosso país, sob risco de cair nas emaranhadas reder da previsão econômica.

Um exemplo claro para ilustrar esse problema que pessoalmente testemunho a mais de 15 anos é ver dois grandes bancos americanos projetarem tão diferentes cenários para o PIB brasileiro em 2009 e 2010.

O Banco Morgan Stanley prevê que este ano nosso PIB vai cair 4,5% e que ainda cairá mais 0,5% no ano que vem. Enquanto isso o Bank of America/ML prevê que o PIB vai crescer apenas 0,8% este ano, voltando a crescer 4,4% no ano que vem. Ainda teríamos algumas dezenas de firmas com diferentes previsões para preencher a lacuna entre os dois acima.

Sabemos então que a previsão é frágil, pois sempre será um exercício de futurologia, com mais ou menos chances de confirmar-se. Então o mais importante é analisar como estamos passando pela situação atual, no caso uma crise épica e centenária que por hora devastou a economia mundial.

Nesse sentido o Dionísio está certo, pois vive me dizendo que um país como o Brasil, que tem a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo; tem a segunda maior mineradora do mundo; tem uma empresa de petróleo com tecnologia de ponta e reservas de óleo que farão o país estar entre os oito maiores produtores nos próximos dez anos; um país com um mercado consumidor de quase 200 milhões de pessoas; um território e uma indústria de alimentos que fornece mais comida do que o brasileiro poderia consumir; o único entre os iguais que possui uma taxa de juros ainda muito elevada e que portanto permite uma queda acentuada que estimulará o consumo e a atividade econômica, não pode estar mal preparado para o futuro.

Enfim, como disse em uma entrevista para o Wall Street Journal essa semana Jim O’Neill, o criador do conceito “BRIC”, nome para o grupo de países que segundo o economista da Goldman Sachs irão ser os pilares da economia global em 2050:

O´Neill: “Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.”

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: “Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.”

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: “Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto à Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.”

WSJ: Quando o Sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: “A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.” (fim do trecho)

Deixemos as previsões para os economistas que, aliás, são muito bem pagos para fazê-las. Assim como o Dionísio, muitos aprenderam a andar com um guarda-chuva ao sair de casa independente do que a previsão do tempo diz.
Espero que aqui possamos sempre “discutir” e fazer uma avaliação sincera, realista das condições econômicas do presente e das conseqüentes oportunidades que nosso país continuará a apresentar para os que souberem aproveitá-las.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O mundo e seus insistentes movimentos pendulares

Nos momentos atuais cada um de nós tem dedicado um pouco mais de atenção aos acontecimentos econômicos mundiais, enquanto ao mesmo tempo nossas mentes têm procurado por respostas sobre quanto essa crise significará de perdas para a economia real e por quanto tempo a teremos por aqui.

Não é de surpreender também que surjam nesses momentos muitas previsões sobre o futuro, sejam de economistas ou de videntes, e especialmente muitos cavaleiros que insistem em serem os arautos do apocalipse. A pergunta que não nos deixa em paz ao acompanhar essa inundação de dados e notícias fica sem resposta enquanto ficarmos apenas analisando os fatos presentes sem a perspectiva das engrenagens que movem o mundo capitalista.

Recordei-me de minha visita à ilha de Cuba há alguns anos atrás e de como achei retrógrada a entrevista da imigração deles, questionando-me se eu tinha algum vínculo político ou ainda que tipo de atividade social eu praticava no Brasil, como se eles ainda estivessem na época da guerra fria. Na verdade, afora a parte triste de existir um lugar como aquele, com pessoas que não têm a perspectiva do que é viver outra vida senão sob o jugo da mão ditatorial, eu entendi ao passar pela imigração que a partir daquele momento eu precisava olhar as coisas sob a lente do entendimento das engrenagens que moviam aquele regime e a vida dos habitantes do lugar. A viagem foi a partir de então, fantástica.

Aconselho uma visita. A parte histórica de Havana parece uma visita às cidades antigas da Europa; a região de Varadero, a praia com muitos hotéis à uma hora de Havana, é linda, com a mesma água azul turquesa que eu vi em Bahamas, mas com a vantagem de uma área enorme de areias brancas; o serviço é muito bom para um lugar que não tem luxos; a comida é muito parecida com a nossa e muito saborosa. Mas aconselho uma visita para antes de o regime ruir, pois depois a ilha vai receber tanto investimento que vai virar um balneário para os norte-americanos, que finalmente vão levar alguma dignidade econômica para os cubanos, embora me preocupe muito se vai sobrar algum charuto cubano para o resto do mundo comprar quando tudo isso acontecer.

Sem querer tirar o prazer da viagem mental que fizemos à ilha de Cuba, trarei nossos pensamentos de volta para o assunto “crise” e aquela pergunta que não quer calar. Por enquanto não posso oferecer mais do uma reflexão sensata sobre as observações que faço diariamente, no caso de hoje, sobre alguns dados interessantes que uma consultoria de Londres publicou essa semana.

Uma das engrenagens que movem o capitalismo é a precificação de um ativo pela lei da oferta e procura. Pelo que temos visto, a oferta de ativos financeiros tem sido maior do que a procura e por isso os preços mantêm-se em baixa, especialmente o petróleo. Recordem que apesar dos esforços feitos, a matriz energética do mundo ainda está casada com o “ouro negro” e assim permanecerá por muitos e muitos anos, especialmente se o preço dessa fonte energética permanecer em patamares acessíveis. O que aconteceu nos últimos cinco anos foi icônico nesse sentido, quando o preço do barril de petróleo explodiu dos 38 dólares por barril em 2004 para os 150 dólares do ano passado.

Tamanha é a importância do preço do petróleo para a economia mundial que mesmo os países que lucram com a exportação desse elemento estavam muito preocupados com o desequilíbrio causado nas contas de indivíduos e governos com tal abuso praticado pelos players do mercado futuro de petróleo, responsáveis por incendiar a tendência real que havia de alta nos preços, reflexo do crescimento mundial pujante que acontecia.

Os números indicam que o mundo gastou em 2008 o equivalente a 4,9% do PIB mundial com petróleo. Sinceramente, esse número sozinho não diz nada, mas se comparado com a projeção dessa mesma consultoria de que em 2009, em consequência dos preços baixos praticados atualmente, esse gasto será de “apenas” 2% da riqueza gerada no mundo inteiro, significa que nós todos em conjunto economizaremos 1,72 trilhões de dólares só nesse item. Não foi levada em conta a economia em cascata que os preços mais baixos dos combustíveis vão causar na cadeia produtiva como um todo, o que certamente vai significar uma poupança adicional.

Esse valor que será poupado por todos nós é equivalente, de acordo com os cálculos feitos pelos mesmos consultores, a quase três vezes os pacotes de incentivos econômicos anunciados para serem “queimados” ainda este ano, no mundo inteiro. É como se uma força oculta declarasse agora um pacote de estímulos desse porte gigantesco, oferecendo sem distinção de raça, credo ou cor (excetuando-se um outro ditador disfarçado de democrata que infesta um país vizinho e produtor de petróleo), uma benesse para todos os agentes econômicos, nós consumidores inclusos. Posso pedir que você releia as linhas acima novamente, por favor? Obrigado.

O quanto esse “pacote” ajudará a economia mundial a voltar a crescer e em que velocidade, está além de minha capacidade como gestor. Mais uma vez deixo essa tarefa para os que lidam com futurologia, coisa que não faço.

As engrenagens do capitalismo continuam a ditar os altos e baixos da economia, fazendo os pêndulos que ditam a intensidade dos movimentos financeiros serem ao mesmo tempo “vilões e mocinhos” de nossa vida econômica.

O que me parece, ao observar esse caso do petróleo, é que como se fosse uma Lei, para cada movimento que gere um desequilíbrio, há uma força de magnitude similar que impele o pêndulo na direção oposta, assim como em todos os demais aspectos da vida em que podemos comprovar isso, oferecendo em cada ponto extremo de seu curso a clara sensação de que exageramos e que não poderemos evitar a correção, que eu meu entender, é sempre bem-vinda.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O Sarney, você, eu e a deflação

Por favor, levante a mão quem foi “Fiscal do Sarney” em 1986!

Vamos lá, não precisa ter vergonha. Dá uma olhadinha pro lado agora, não tem ninguém te olhando, ou se tiver, não deve estar lendo esse mesmo Blog. Se for o caso, azar, mas não deixa isso te inibir não! Se você, assim como eu, achou que aquele Plano Cruzado era uma maravilha e merecia que nós vestíssemos a camisa de fiscais do Sarney a cada visita que fizéssemos ao supermercado, parabéns e levante a mão com orgulho de quem é defensor do justo e do correto! Muito bem, pode baixar agora.

Bom, pelo menos eu tenho a desculpa de que só tinha quinze anos na época e não tinha a consequente consciência do que fazia. No seu caso, espero que realmente ninguém tenha visto seu gesto.

Se por um lado esse e outros episódios ficaram como engraçadas passagens da história de um país que não mais existe tal como era, uma coisa eu aprendi desde então e faço coro com qualquer ex-fiscal do Sarney: é a de que a inflação é um monstro que precisa ser controlado e enjaulado, com o risco de ao não fazê-lo, ver a pior das consequências para a economia e para o povo de um país.

O que pode surpreender qualquer um atualmente é ler a respeito do perigo que representa a queda de preços, do perigo do oposto da inflação, a deflação. Fala sério, me sinto enganado por todos esses anos que acreditei ser a inflação um mal que precisava ser combatido e agora os economistas vêm nos dizer que a inflação é necessária e é um bem para a economia se for bem controlada? Isso pode fazer sentido? Vamos ver em mais detalhes qual o perigo quando acontece o inverso.

Economicamente falando, deflação é uma queda persistente e generalizada no nível de preços de bens e serviços de uma economia, isso acontecendo quando a taxa de inflação já está abaixo de zero, ou seja, a taxa fica negativa. A causa normal dessa condição é um desequilíbrio na relação entre a oferta e a demanda, notadamente a falta de demanda para a oferta total de bens e serviços disponíveis.

Uma coisa é uma queda nos níveis de preços dos bens e serviços por um período, o que podemos chamar de “desinflação”, pois enquanto esse movimento diminui a taxa de inflação, a mesma ainda permanece positiva nesse mesmo período, por exemplo, em um ano calendário.

No meu entendimento, o verdadeiro perigo desse processo de persistente queda de preços mesmo após a inflação chegar ao zero, a deflação, é a grande chance de se formar uma condição de contínua queda dos preços e o consequente afundamento da atividade econômica, pois a deflação apresenta, como mencionado anteriormente, uma sobra de bens e serviços que não encontra compradores, fazendo com que esses “bens” sejam ofertados com menores preços em uma espiral deflacionária muito perigosa.

Esse processo de queda de preços não seria de todo o mau se não entrasse na tal espiral, pelo fato de que nos períodos longos de deflação, muitos decidem esperar mais tempo para comprar algo, contando com que o preço seja ainda menor no futuro, o que acaba por gerar uma sobra ainda maior de “bens” sem compradores e a consequente oferta desses “bens” a preços ainda menores, e aí as pessoas decidem por continuar esperando, as empresas param de investir, os investimentos que deixam de ser feitos deixam de gerar empregos e salários, o desemprego afeta o consumo, e então você já sabe o que acontece e já entendeu a espiral deflacionária que acaba por destruir a economia como um todo.

Não, não quero que você se sinta em um filme de terror e espero que ao ler o parágrafo acima, eu não tenha feito você segurar a respiração. Aliás, não tenho gosto por filmes ou livros que me façam sair da apresentação pior do que entrei. Penso inclusive que fazemos um favor para a sanidade de nossas mentes quando não submetemos as mesmas ao peso que os pensamentos desse gênero de filmes geralmente apresentam. Quem não se sente cansado e até aliviado quando acaba um filme desses?

Pois é, entendo que já temos que enfrentar tantas lutas na vida real que o melhor é brindar a mente com idéias luminosas, agradáveis, e se possível, que nos façam elevar os pensamentos para os aspectos mais importantes de nossas vidas, e não o contrário. Mas isso é outro, e agradável assunto. Voltemos ao tópico do dia.

Não preciso dizer o que você já sabe, ou seja, que esperamos de nossos governantes mundiais mais do que palavras de encorajamento e otimismo, pois essas sem o respaldo de muita ação inteligente, não resolvem nada. Ao mesmo tempo penso ser prudente recordar a cada um de nossos leitores sobre a responsabilidade e o poder que temos quando atuamos em conjunto na sociedade em que vivemos. Espero que cada um possa refletir sobre o momento especial que vivemos e que momentos assim exigem, ainda que já o façamos normalmente, mais atenção ao todo do que apenas à realidade pessoal de cada um.

Sejamos prudentes com os gastos, sejamos inteligentes para escolher quais ofertas comprar, sejamos rápidos para aproveitar os desequilíbrios na oferta e demanda, mas, pense que para o bem comum, todos precisam continuar em seus negócios, senão, como dizia um simpático senhor de uma fazenda que uma vez visitei: “Se você apertar demais as tetas da vaca, amanhã não vai conseguir tirar o leite!”

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Terra à vista!" (com outro sotaque)

− O epicentro para as Américas precisa ser um país como o Brasil, que é o país emergente mais promissor da região.

Esse dizer acima poderia ter sido pronunciado por um governante português no século 16.

Quem nunca se lamentou de não estar presente pra ver a maravilha que encontraram aqui os portugueses quando Cabral foi enviado para tomar posse das terras a leste de Tordesilhas?

Eu queria estar presente, não pra viver as dificuldades que a vida da época devia apresentar, mas para sentir a alegria de descobrir uma terra tão próspera, tão bonita e com a maior das virtudes, a prerrogativa de tornar-se uma nação próspera e de paz como a que queremos ver realidade, e que não tenho dúvidas de estarmos a caminho de alcançar um dia.

Temos lido na mídia e eu tenho publicado minha opinião sobre diversos aspectos da crise mundial e das consequências para nossa realidade verde e amarela. Mais do que isso, os leitores são empresários, executivos, profissionais liberais e estudantes que estão em contato direto com a realidade da economia real, sendo importantes atores na condução da mesma.

Sobre essa condução, imagino que alguém possa ler e considerar um exagero minha afirmação de que são todos importantes atores na cabine de comando dessa grande nau (dessa vez não é a portuguesa). Se assim parece, peço que considere a real face da economia e dos mercados. Quem a determina? Quem tem peso na balança que marca o valor de nossas conquistas como país, como uma nação?

Excluindo o contingente que não tem ainda a condição para ser mais do que figurantes nessa cena, preenchendo a tela com sua mão-de-obra abundante e ainda feliz por ter essa chance, me refiro ao poder que temos como consumidores, como poupadores, tomadores de crédito e principalmente como empreendedores.

Essa condição não é exclusiva dos grandes empresários, pelo contrário, muitos têm a iniciativa e desenvolvem suas idéias, seus anelos e sonhos no campo profissional, aliando a inteligência ao esforço e aproveitando que somos uma nação regada pela generosidade da natureza e com um imenso mercado consumidor.

Acaso esquecemos o significado que tem o Brasil para os demais países do continente? São Paulo ser a maior cidade do hemisfério sul do planeta não significa nada além do caos no trânsito? Não vou listar os mega números que explicitam a importância do que fazemos aqui já que eles estão constantemente nos jornais. Não é por acaso que nossa economia real recebeu mais de 40 bilhões de dólares em investimentos vindo do exterior no ano de 2008. Imaginem se não tivéssemos a crise a partir do meio do ano passado, o quanto mais teria sido investido no último trimestre.

Se você, assim como eu, está cansado dessa promessa que ainda não se cumpriu, respire fundo e mais uma vez deixe para trás as difíceis relações que cada um de nós tem com o governo e com nossa confusa legislação. Não volte a se irritar pensando na parte de nossos políticos que merecia estar em uma cadeia. Concentre-se novamente na sua realização pessoal e profissional e no que isso colaborou com muitos outros, com o país.

Nós temos construído o Brasil que queremos ser. Nós temos ditado para os governantes quais os limites em que a caneta do governo pode sentir-se solta para suas idéias próprias e qual a fronteira que não pode ser ultrapassada, pois essa linha delimita a área em que a economia real é a que manda, é o terreno que pertence ao povo que faz e acontece diariamente nesse país. Se não fosse assim, seríamos mais um desses países que estão nos jornais quase todo dia, infelizmente pelos absurdos que falam e fazem os governantes. Países onde a dependência de uma principal fonte de riqueza acaba por permitir o surgimento de um tirano. Nesse caso específico é uma pena ver um país ser afundado pelo seu governante. Imagino a aflição desses povos que não conseguem ver saída pacífica para libertar-se dessa influência terrível. Mas estaremos colaborando para mudar isso se continuarmos a ser um exemplo da força oriunda do empreendedorismo.

O Brasil esteve moribundo durante algumas décadas antes do plano que trouxe a estabilização da moeda e o controle da inflação. Era fácil observar a liberdade que tinha cada novo governo para tentar planos mirabolantes ou velhos planos que em outros países já haviam sido experimentados e reprovados. A caneta que assinava a ordem presidencial era muito mais forte do que a voz da economia real.

Não demorou muito tempo, prova do poder que emana da economia, para que o Brasil estivesse em um rumo firme, tentando entender o que precisava fazer para aumentar a velocidade de cruzeiro. Menos de dez anos nessa nova condição e tivemos o teste definitivo: a ascensão ao poder de um político que passara os vinte anos anteriores fazendo juras de revolução e ódio ao sistema capitalista vigente. Previram-se todas as desgraças possíveis, imaginamos que tão logo assumisse o poder, sua caneta presidencial assinaria a sentença de morte de nossa economia e levaria a nação ao caos.

Até hoje ainda me surpreendo, e sei que você leitor também, com a força que deve ter sido aplicada pela nossa realidade econômica em cima do presidente que era tido quase como um louco, a ponto de ele não apenas ter mantido como ainda ampliado a rota de políticas econômicas e de responsabilidade que o antecessor havia adotado. Ver a ira que isso causou nos correligionários do seu partido foi quase como um bálsamo cicatrizante para meus olhos ainda ardidos com a novidade. Mas de acordo com a lei do mais forte, a realidade prevaleceu.

Se com esse passado que conhecemos e ainda com o que já esquecemos, chegamos até aqui, não precisa ser guru para prever com boa possibilidade de acerto que, afora o soluço inerente à crise global, caminhamos para consolidar o lugar que já estamos marcando nesse mundo globalizado. O Brasil desponta, apesar de todos os problemas, como um país que terá a cada dia mais influência econômica e talvez política no mundo. Os sinais são muitos, olha abaixo essa notícia cuja fonte é a Bloomberg Press de 29 de janeiro último.

O Standard Bank, maior banco da África do Sul, pequeno se comparado aos nossos gigantes Itaú e Bradesco, mas ainda assim, com um valor de mercado maior que 15 bilhões de dólares americanos, anunciou a mudança de seu quartel-general para as Américas, que até hoje era em NY e agora passa a ser SP. O banco já conta com mais de 100 funcionários no Brasil e planeja contratar mais ainda este ano. Eles estão formando um fundo de USD 250 milhões na modalidade “private equity” para investir no país.

Interessante mesmo é o que os motivou para a mudança da sede dos EUA para o Brasil. De acordo com o presidente regional, o motivo foi que:

− O epicentro para as Américas precisa ser um país como o Brasil, que é o país emergente mais promissor da região.

Pois é, quem diria que Cabral era um visionário? E você, vai ficar lamentando a metade vazia do copo ou vai saborear a metade cheia?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre o "erro crasso"

Conheci muitas pessoas, incluindo a mim mesmo, que em determinado momento da vida fizeram uma ou mais daquelas bobagens que a razão julga tardiamente como erro ingênuo, tosco ou primário.

Por exemplo, quando na primeira viagem aos Estados Unidos eu dava com a cara no vidro toda vez que puxava uma porta com o intuito de abri-la, apenas porque a mente não conseguia se acostumar com o ato de empurrar ao ler a palavra “PUSH”. Tá bom, talvez o exemplo seja ingênuo demais.

Que tal então aquela corridinha para entrar no elevador embora a porta esteja começando a fechar, mas a gente sempre acha que vai dar e acaba ficando com aquele sorriso amarelo no intuito de passar a impressão que não doeu nada, que mal sujou de graxa a camisa quando as portas fizeram sanduíche de você? Ainda é um exemplo simples, mas se você riu, bem-vindo ao clube dos que já passaram por esse “aperto”.

Agora ao exemplo atual e revestido de interesses financeiros. Não vi apenas um, vi vários conhecidos, que ao longo dos últimos meses permitiram-se acreditar que tudo o que vinham compreendendo e consagrando como certo no mercado de capitais estava, do dia para a noite, errado. Era como se a ciência que trata da oceanografia tivesse que ser totalmente reescrita após a passagem daquele tsunami que varreu o Oceano Índico anos atrás, ao invés de ter esse fenômeno estudado e acrescentado ao vasto cabedal daquele ramo do conhecimento.

O que parece óbvio não é a resposta universal para todas as perguntas. O fato de que muitos estavam vendendo quaisquer ações e outros ativos financeiros a qualquer preço não indicava um comportamento racional ou premeditado. Ao contrário, sabemos que parte disso respondeu principalmente à necessidade de gerar liquidez (dinheiro) no menor prazo possível. A outra parte foi por conta do pânico mesmo.

Observei algumas pessoas que por conta do que os jornais retratavam para aquele mês ou período, projetaram aquela “foto” como válida para toda a vida e assim se portaram com seus investimentos, vendendo barato o que haviam comprado quando estavam “certos” de seu valor futuro.

Um pouco de história e conhecimento, de acordo com inúmeras fontes que consultei, pode nos ensinar muito. Você descobrirá que conhece algo sobre uma época romana, ou pelo menos, refere-se a uma passagem de sua história com freqüência, ou você nunca disse: “isso foi um erro crasso”. O mais surpreendente é que se sabe muito sobre esse fulano que deu origem à expressão citada acima.

Eu li que em 59 A.C, o poder em Roma foi dividido entre Júlio César, Pompeu Magnus e Marco Licinius Crasso. Este último era mais conhecido pela sua riqueza do que por seu talento militar. Júlio César conquistou a Gália, Pompeu dominou a Hispânia e Jerusalém. Crasso precisava mostrar sua teórica inteligência militar e decidiu que como prova de tal inexistente aptidão conquistaria os Partos, um povo persa cujo império ocupava, na época, boa parte do Oriente Médio.

Comandante de sete legiões romanas, famosas desde sempre pela dedicação em batalha e temidas em todas as partes do mundo de então, Crasso confiou demais na superioridade numérica de suas tropas. Abandonando as táticas militares romanas, ignorando as lições aprendidas em séculos, deu ordem para que os 50 mil legionários avançassem por um estreito vale que provia nenhuma vantagem militar, pelo menos não para quem decidisse se espremer nele. Na ânsia de chegar logo ao inimigo decidiu a sorte da batalha.

Os orientais fizeram como eu sempre fazia quando jogava “WAR”, concentraram suas tropas nas saídas do vale, no ponto onde podiam oferecer muito poder de fogo contra uma parte pequena do inimigo que avançava.

Ocorreu o óbvio, o exército romano foi dizimado. Consta que quase todos os 50 mil soldados morreram, incluindo o “exímio general” Crasso.

Tamanho erro feito por Crasso virou, em várias línguas, sinônimo de estupidez.

Continuando, nas últimas semanas começam a despontar no horizonte ainda distante a leste, os primeiros sinais de que após a tempestade o céu tende a se acalmar, e que eventualmente, no tempo certo até veremos o azul celeste, afinal, os processos do universo sofrem o impacto de muitas “imprevisibilidades”, mas como tudo que existe nele, os elementos se adaptam e reiniciam seus movimentos habituais e naturais.

O caminho fácil é deixar-se seduzir pelas imagens que os outros nos apresentam. O difícil é manter-se isento e praticar o superior ato de pensar por si mesmo, maneira pela qual, muitas mentes conseguem atingir objetivos que aos olhos dos demais parecem extremamente difíceis.

Foi um erro crasso praticado por aqueles que deixaram levar-se pelo pânico, rasgar o conhecimento acumulado durante anos no mercado de capitais simplesmente porque parecia muito mais fácil do que se colocar a pensar sobre o que de fato estava acontecendo. Tenho um amigo que se lamenta disso todo o dia, vendo o mercado recuperar um considerável trecho do terreno perdido embora ele não tenha mais as ações em carteira.

Ninguém pode dizer quanto tempo levará para a economia mundial recuperar-se, mas nem por isso precisamos ignorar os conhecimentos básicos que determinam o ir e vir da economia real, onde a riqueza é criada e onde estão as maiores oportunidades de investimento.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Amaro, Obama e a maquininha de fazer dinheiro

A impressão que temos ao ler os jornais dos últimos meses, com os anúncios de governos no mundo inteiro preparando planos de combate à crise, poderia ser a de que ninguém sabe se a crise será maior ou menor do que a disposição e dinheiro dos que a combatem, ou ainda mais intrigante, onde é que esses governos vão achar tanto dinheiro para irrigar as economias desses países nos montantes anunciados.

Com esse ar intrigante me ligou o Amaro, amigo de longa data, companheiro nos momentos felizes e nos tristes, daqueles que sempre dá pra gente se divertir mesmo quando falamos das coisas mais difíceis da vida.

A dúvida em sua mente era exatamente como poderiam esses governos lançar tais pacotes. Incomodava-o acreditar que nossos primos do norte poderiam lançar pacotes que somam alguns trilhões de dólares americanos.

A conversa desenvolveu-se mais ou menos assim:

− Oi, tudo bem? Tô preocupado com essas notícias sobre os pacotes contra a crise! − abriu a sessão o Amaro.

− Amaro, o quê exatamente te preocupa, a crise ou o pacote de resgate que os americanos anunciaram?

− Esse dinheiro todo que eles tão falando nos jornais. Os caras têm toda essa dinheirama?

− Não, não tem, mas é fácil de ter. Sabe a máquina de verdinhas? – perguntei me referindo às máquinas que imprimem dinheiro e que só têm esse nome porque como todos sabem lá as cédulas são monocromáticas em tom verde.

− Que maquininha verde? Do quê você tá falando? – esbaforiu ele com aquele ar de quem está metade assustado e metade perdido.

Respirei fundo sabendo que a resposta precisava não apenas de informação, mas de bastante paciência para frear aquele estado de confusão e medo na mente do Amaro, e mudei a tática:

− Amaro, o dinheiro que um país dispõe para gastar ou investir é aquele oriundo dos impostos arrecadados e mais a capacidade de endividar-se, que por sua vez é diretamente proporcional à confiança que o público “emprestador” tem nesse país. No caso americano (do norte), afora a gigantesca arrecadação governamental, o país é considerado como o de menor risco existente no planeta, na prática, tido como risco zero. Então a resposta é que eles têm o dinheiro que precisarem, é só mandar a casa da moeda imprimir mais.

− Mas como assim? E pode isso, não tem limite? – continuou descrente.

− Sim, tem limite, mas esse limite é elástico. O Brasil, por exemplo, que não tem tal nível de credibilidade – continuei – tem uma dívida pública que corresponde a 37% do PIB e ainda temos que gerar uma sobra de arrecadação que é utilizada para diminuir essa relação a cada ano. Essa diminuição é necessária principalmente porque temos taxa de juro muito alta, gerando um enorme custo de “serviço da dívida” (o que se gasta em juros e correções do principal).

− Então, os caras vão conviver com um déficit enorme nesses próximos anos, isso não vai quebrar as contas públicas deles? – era a última tentativa que ele fazia para sustentar aquela posição de desconfiança.

A explicação que dei para tal possibilidade de gerar mais dívidas é a de que o sistema vigente permite tais regalias, pois se sustenta na credibilidade e não em produtos ou bens, ou ainda em reservas de metais preciosos como eram usadas antigamente. Em suma, o atual é um sistema que vive na perigosa linha do equilíbrio psicológico mútuo, ou em casos de crise como agora, na linha de frente da guerra psicológica.

Diferente do Brasil, existe uma condição propícia para os Estados Unidos da América gerar tal aumento no déficit orçamentário, pois inversamente ao nosso caso, o custo de rolar uma dívida lá é baixíssimo se comparado ao nosso. É a mesma coisa de tomar dinheiro emprestado com um amigo e pagar corrigido ao CDI ao invés de ficar estourado no cheque especial, ou seja, um abismo separa ambos.

− Você tá mesmo otimista com tudo isso, não tá vendo a verdade! – sentenciou o Amaro.

Em alguns segundos fiz uma recordação mental dos últimos seis meses de crise e acontecimentos globais, e então respondi:

− Amaro, eles vão ter todo o dinheiro que julgarem necessário. O PIB deles é algo como USD 14 trilhões (o nosso deve estar em torno de BRL 3 tri). Eles vão subir o endividamento público do país em mais USD 1.2 tri de dólares. Possivelmente vão rodar uns dois ou três anos nesse nível enquanto a economia prepara para retomar o crescimento que apresentava, para então parar de aumentar o furo e eventualmente diminuí-lo.

Falei ainda sobre a ascensão do Obama ao poder e tudo o que representava isso para aquele país e para o mundo. Manifestei-lhe que a julgar pelo que conhecemos até agora, o novo presidente pode ser a pessoa certa para reconduzir a economia mundial ao ponto em que eles mesmos se perderam anteriormente. Mas essa parte caiu no vazio.

Julguei ser prudente não mencionar que o Brasil é atualmente o 6º maior credor do Tesouro americano na categoria “estrangeiros”, incluídos nessa lista alguns gigantes como China, Japão e etc. Nós possuindo mais de USD 140 bilhões em títulos daquele emissor.

Mas já era o final da conversa. Não sei se foram os números que o deixaram meio assombrado ou se eu havia despertado nele a nobre virtude da humildade que aflora quando nos vemos frente algo muito maior que nossas forças ou do que nossa compreensão.

Não me lembro o que ele disse antes de desligar, mas fiquei com a sensação de que ele não estava mais preocupado de onde sairão as montanhas de dinheiro que serão injetadas na economia mundial. Devia estar pensando na próxima preocupação da lista.

Talvez cada um de nós, assim como o Amaro, tenha sentido um dia um choque de realidade ao descobrir que o dinheiro que nasce na economia e que é poupado por cada cidadão ou governo, acaba sendo o mesmo que financia o déficit daqueles que gastam mais do que arrecadam. Ao mesmo tempo, os que gastam mais acabam gerando mais riqueza global, que por sua vez, na parcela que não é destinada aos gastos e investimentos, reflete-se na compra de mais títulos de dívida (poupança), e o ciclo se repete indeterminadamente.

Acho que o Amaro fez as pazes com o Obama. Não me surpreenderei se ele sonhar com a maquininha verde.

Então, o que será de todos nós? Ora, ao trabalho como sempre fizemos, pois o ciclo continua e de acordo com o resultado parcial da enquete ao lado, ainda vamos rir muito de tudo isso.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O que um piloto de corrida faz quando vê a luz verde?

Eu já disse antes que analisar a história econômica de um país como o Brasil é sempre um exercício interessante. A começar porque no início mesmo, antes de Cabral, chamava-se Pindorama (terra das palmeiras na língua indígena). Como um lugar chamado Pindorama transformou-se no que somos hoje é de torcer a barba de qualquer historiador.

Você pode, ao deter-se no assunto economia brasileira, observar os fatos ocorridos e as consequências atuais dos mesmos, assim como pode estudá-los para tentar entender como será o futuro a partir daquilo e tomar suas decisões. Mas cuidado! Essa é a forma de fazê-lo quando o objeto de estudo tem uma trajetória centrada no normal e previsível, o que todos sabem não ser verdade para o nosso país até pouco tempo atrás.

Vejamos um assunto que tanto nos interessa, o regime de metas de inflação adotado pelo Brasil em junho de 1999, ainda que erroneamente muitos entendam que suas vidas não têm nada a ver com isso. Na verdade eu queria mesmo era falar de “Fórmula 1”, esporte que me fascina e que acompanho desde infância, mas deixarei esse assunto para quando o circo estiver montado a partir de março. Contentarei-me apenas com o título desta postagem, que ainda assim, está correto para o assunto de hoje. Continuando então...

Esse regime, inicialmente criado pela Nova Zelândia em 1990, prevê o uso da política monetária como forma do Banco Central fazer convergir a inflação real para a meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (no nosso caso). É um jogo psicológico, onde quanto mais o mercado acredita que o Banco Central vai utilizar o que for necessário para convergir a inflação para o objetivo, mais facilmente os agentes econômicos (indústria, comércio e serviços) se planejam de acordo com essa meta de inflação, o que acaba por trazer de fato a inflação realizada para a meta ou próximo dela.

Ainda de acordo com o modelo acima, os ajustes feitos em cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) devem ser suficientes para produzir tal efeito, ou seja, aumentando ou diminuindo a taxa de juro básica para desestimular ou estimular a economia, mirando a sempre a inflação. Agora pergunto se você leitor pauta as suas decisões de consumo e investimento a cada mudança na taxa de juro ou se você simplesmente pensa se no seu orçamento cabem tais aquisições? Obviamente que a taxa de juro está implícita no preço que você paga pelo serviço ou bem que quer consumir, então você não está isolado dessa realidade quando toma a decisão, mesmo que você esqueça isso.

O que faz com que a reunião desta semana tenha tido um significado que mereça o título desta postagem é o fato de que começar um regime de metas de inflação em um país com taxa de juro nominal baixo é uma coisa, mas fazer o mesmo em um país que no início de 1999 tinha taxa de quase 30% ao ano é outra coisa, é um enorme desafio.

Pense no efeito psicológico que advém dos aumentos e diminuições da taxa de juro de 0,25% ou 0,50% comumente utilizadas pelo Copom. Agora pense no efeito que essas mudanças de taxas têm nos cálculos de investimentos e planos de negócios que as empresas estabelecem antes de realizar os investimentos. Sim, quase nenhuma influência em um país com taxa de juro alta como a nossa foi, e inversamente, muita influência em um país que pratica taxas baixas já que percentualmente essas mudanças pequenas significam mais.

Por motivos óbvios, poucas oportunidades surgem na história de um país que o permita fazer ajustes pesados no patamar da taxa praticada, afinal, se pudesse fazê-lo antes, por que não o teria feito? Pois bem, estamos diante de uma dessas oportunidades que no jargão do automobilismo, pode conduzir-nos para uma posição no pelotão da frente ao invés de ficar brigando para chegar em décimo lugar como temos feito nos últimos quinze anos. Taxa de juro em patamar baixo é o mesmo que largar com tanque mais vazio, você tem uma vantagem competitiva enorme e mesmo que precise parar de vez em quando para reabastecer, sempre voltará à pista na frente dos que não largaram tão rápido como você (se não acredita nessa teoria, me explique os infinitos títulos do Schumacher na Ferrari).

A crise global criou, paralela às dificuldades, a condição especial para fazer esse ajuste, pois as condições da economia doméstica estão sob jugo das condições econômicas mundiais, não tendo muito efeito no país uma queda de 1% na taxa como vimos essa semana. Se por um lado isso faz parecer que estamos sem muitas ferramentas para contrapor a crise (o que é verdade), por outro nos dá a liberdade de fazer um ajuste mais profundo no patamar da taxa de juro, assim como fez o Copom nessa última reunião. Certamente não teremos riscos à meta de inflação se o câmbio continuar igual ou melhor do que está, e se a economia mundial continuar em dificuldades, sendo razoável esperar por mais duas reduções de igual magnitude ou algo com um resultado similar, que ao final do semestre, nos tenha deixado nessa condição mais confortável de pilotar um carro mais ajustado, mais “normal”, onde a taxa de juro da economia estejam próximos de mudar de dois dígitos para apenas um.

Acelerar! Espero que tenhamos a oportunidade de ver cortes ainda maiores na taxa antes que seja necessário parar as reduções, o que ocorrerá apenas quando a nossa atividade econômica der sinais de que não poderá produzir o suficiente para atender à demanda sem gerar inflação, o que não está no radar dos próximos meses dado a diminuição da capacidade utilizada do parque fabril instalado no país. Outros elementos poderiam fazer ascender uma luz amarela no Copom, mas todos estão relacionados de um jeito ou de outro, com o aumento da atividade econômica mundial e local, ambos como já disse, ainda no campo do desejo.

Conseguir um lugar no pódio da corrida pelo desenvolvimento econômico e social do mundo exige mais do que adequar a taxa de juro para níveis mais baixos enquanto mantém a inflação sob controle, que o diga a infindável lista de reformas pendentes no Executivo e Legislativo, mas largar leve e dispor de uma aceleração melhor já fazem a diferença entre participar de uma corrida ou entrar nela para disputar uma vaga no pódio.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O "morto-vivo", realidade ou ficção?

Como primeira postagem do ano, vou propor algumas reflexões sobre uma vivência que eu tive. Considere a possibilidade de ver a si mesmo na situação que vou descrever, não em relação ao mercado financeiro, ou melhor, não apenas sob esse enfoque.

Pois bem, sobre a pergunta do título, eu não queria estragar a surpresa afirmando que a resposta correta é “realidade”, mas como acabei falando com um deles na semana passada me senti na obrigação de fazer tal revelação.

A fisionomia da personagem citada não parecia em nada com a dos zumbis dos filmes de terror que evitei a vida toda, muito menos acho que algum diretor de Hollywood tenha vestido os tais mortos-vivos com as roupas caras que vestia o meu conhecido. Importante entender que essas diferenças cosméticas não me impediram de ver a grotesca semelhança.

Iniciou a conversa daquela manhã naquele tom de voz de vilão de novela passando conversa fiada no sogro milionário com o objetivo de conseguir a benção para casar com a bela e inocente filha. Introduziu o assunto com a seriedade exigida quando se vai demitir alguém ou informar um parente sobre o estado terminal de saúde do paciente. (Incrível o que imagens analógicas constroem em nossas mentes, não?)

Anunciava-me, enquanto estendia as mãos querendo sugar-me para o mundo dos mortos, que a economia sucumbiria em breve com os conseqüentes efeitos no mercado financeiro, e como que para dissipar qualquer dúvida que por ventura eu tivesse, recordou-me que naquele instante a Bolsa de Valores caia mais de 2%. Sua irmã havia relatado alarmada que a empresa da qual ela é dona havia vendido só 5% a mais que no mesmo mês do ano anterior, muito abaixo do que previa vender neste último Dezembro. Obviamente que nesse relato ela omitiu o fato de que no acumulado dos últimos doze meses ela deve ter vendido muito mais do que em 2007. A mente de meu amigo havia sucumbido aos pensamentos de terror. Estava “morto”.

Entenda que para alguém como eu, que passa o dia lendo relatórios sobre economia e empresas, que freqüenta reuniões e conferências sobre o mercado acionário, que contata diretamente os departamentos de relações com investidores das empresas e atende às suas apresentações, o cenário que ele traçava era exatamente o que todos nós no mercado sabíamos que iria acontecer quando essa crise atingiu seu ponto máximo e cortou o fluxo financeiro para a economia real, ou seja, uma forte freada na economia brasileira. Ainda assim, que semelhança tem isso com o cenário catastrófico que algumas pessoas têm tentado difundir para nós? Pouca e débil semelhança.

Já aprendi que na vida, em qualquer de seus aspectos, toda interrupção é um retrocesso, sendo inevitável observar tal verdade no que diz respeito à economia ou finanças, mas assim como após um retrocesso nós colocamos as melhores energias para retomar o terreno perdido, o mundo está se posicionando para tal, com cada uma das medidas possíveis sendo tomadas para que essa retomada não demore muito para acontecer. Vai demorar um pouco, resultado inerente do processo de causas e efeitos que rege o universo com ou sem nosso conhecimento.

Embora eu não vá tratar novamente de muitos pontos já apresentados em outras postagens deste blog, sobre a dinâmica da economia real e sobre o mercado, é necessário reafirmar o que já disse antes, que cabe a cada um de nós escolhermos sob qual lente examinará a realidade do mercado financeiro e viver as conseqüências de tal decisão. Eu posso dizer por mim e pelos que tem compartilhado dessa compreensão, que mesmo vivendo a maior crise financeira que o mundo viu no tempo moderno, estamos serenos em nossos objetivos, transformando a crise em uma grande oportunidade. Fácil de realizar não é, mas como diz a sabedoria popular, o que vem fácil, fácil se vai.

Nosso amigo, zumbi por opção, ligou-me novamente ao final da tarde, e como em um passe de mágica a Bolsa havia virado e naquele instante subia quase 3%, a primeira coisa que me perguntou foi “será que estou errado?”.

Para não alongar o relato, recordei-o que embora estejamos vivendo na economia real o que o mercado já precificou três meses atrás, por outro lado estamos vendo a montagem de um cenário que tem grande chance de ser a maior corrida por ativos de risco que o mundo já viu nas últimas décadas, cenário que tem seu fundamento na enorme pilha de dinheiro que os fundos e demais investidores montaram com a venda de tantos ativos recentemente. Existem alguns fatores que são como marcos que precisam ser atingidos para disparar tal corrida e como eles não serão atingidos tão cedo, até lá o mercado continua refém dos zumbis.

Fiquei pensando se não somos um pouco zumbis em outros aspectos da vida, oscilando entre estados de ânimo tão diferentes que até pareceriam com o calor e o frio, ou com a vida e a morte.

É preciso encontrar essa lente que nos permita passar pelas crises que a vida sempre apresenta e transformá-las em algo útil. Penso que é hora de nos levantarmos contra o domínio dessas correntes mentais que querem impor um estado de sítio na mente humana, impedindo-nos de exercer o saudável exercício de pensar, de razoar, de julgar e formar nossas próprias conclusões, de buscar em cada experiência difícil, o elemento que faltou para que acabasse diferente.

Meus votos são de que 2009 seja o ano em que cada um de nós possa conquistar mais essa condição, humana por excelência, realizável pelo esforço, de ser cada dia mais o dono de seus pensamentos, forjando um futuro melhor para si e para a humanidade.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O nhoque, o brigadeiro e as ações

Impressionam-me as tantas dificuldades que nós temos em relação às coisas simples da vida, qualquer que seja o assunto. Parece que nós, seres humanos, ainda não aprendemos a lidar com os pensamentos que em vários campos da vida tentam nos levar para o desequilíbrio.

Por exemplo, eu gosto de nhoque de batatas. A cozinheira aqui em casa faz sempre misto, de batatas e de mandioquinha. Eu também gosto de mandioquinha, mas gosto mais ainda do nhoque de batatas, ainda que ela sempre faça o misto.

Cada vez que ela coloca a travessa cheia na mesa, eu começo a curtir o aroma e o visual daquela magnífica obra de arte (quando bem feita, é claro) e minha boca só não enche de saliva porque não dá tempo, eu logo mando a primeira garfada. O que ocorre depois é quase como um filme que se repete, vou comendo em ritmo acelerado porque a comida está muito gostosa, e meu organismo vai recebendo aquela quantidade em exagero que não dá nem a oportunidade para o cérebro notar os sinais químicos do sistema digestivo sobre a possível interrupção no ato de alimentar-me, dada a farta disponibilidade de energia ingerida nesse curto espaço de tempo.

Para piorar, soma-se à ansiedade (como se a comida fosse fugir do prato no instante seguinte), a gula, pensamento nefasto que se manifesta sempre que a minha mente não se antepõe ao mesmo, exibindo a notória marca de quem ainda não se livrou da forte influência do instinto na vida humana. O que isso tem de relação com nosso tema central? A clara distinção entre a necessidade real e a que nosso instinto quer impor, obviamente muito além do que seria a real. Podemos aplicar essa observação a qualquer aspecto de nossas vidas. Tomemos mais uma vez o mercado financeiro e nossa posição como investidor.

O que cada um de nós busca ao investir seus recursos financeiros? Já vi de tudo, desde o estressante comprar para vender no instante seguinte aos que ilusoriamente pensam que é só comprar qualquer coisa e esperar sentado. Vi também e aprendi a conhecer melhor as empresas, estar com as pessoas que administram a mesma e conhecer sua realidade, identificando as que merecem a nós como sócios. Penso que podemos resumir esse objetivo, o de como sócio, receber ao longo do tempo uma remuneração que além de proteger-nos da inflação possa também acrescentar um ganho real tal que resulte em um futuro financeiro no qual possamos colher os frutos do esforço de poupar que realizamos hoje. E qual seria esse rendimento ideal para alcançar tal objetivo? A princípio o de maior razão entre o retorno e o risco.

Não se pode pensar em aumentar os rendimentos sem participar da engrenagem que gera a riqueza em nosso país. Essa engrenagem é a economia real onde se agrega valor aos produtos básicos antes de oferecê-los à população, onde se transforma a capacidade intelectual em serviços prestados, onde os recursos naturais são explorados (quando feito adequadamente) e resultam em um país com muitas condições de seguir sua marcha de desenvolvimento e inclusão social. Ou depois dessa demonstração dos últimos anos alguém ainda acredita que inclusão social se faz com programas assistencialistas?

A ascensão de uma fatia enorme da população brasileira à categoria de consumidores se deve ao giro cada vez melhor dessa engrenagem mencionada, que ao mesmo tempo em que gera um grande número de empregos, lança os respectivos salários no mercado consumidor (e o ciclo se repete). Essa engrenagem se serve, dentre outras fontes, dos recursos de investidores que entendem ser um ótimo negócio ser sócio capitalista de uma boa empresa de capital aberto em Bolsa.

O conceito de ser sócio de uma boa e rentável empresa, ainda que a participação no seu capital social seja muito pequena, encerra muitos segredos que quando decifrados conceitualmente permitem movimentar-se nesse meio com muito mais inteligência e com melhores resultados.

Se alguém pretende acertar as ações que vão subir mais no futuro, lamento pela decepção que chegará, cedo ou tarde. Não precisamos tentar adivinhar e comprar as ações que vão subir mais, assim como sei que não preciso comer mais do que o necessário ainda que o nhoque esteja “dos deuses”. Sei que a tentação é por ter o máximo que pudermos, mas para ambos os casos, é melhor a escolha do equilíbrio, pois é o equilíbrio o que garante a boa saúde, tanto biológica como a financeira no caso da carteira de participações societárias.

Já falamos em postagens anteriores e temos ainda muito a falar sobre esses conceitos que envolvem “ser sócio de uma boa e rentável empresa”.

E sobre o brigadeiro? Um fato indiscutível é que o melhor brigadeiro do mundo é o de panela, com Leite Moça, a correta quantidade de Nescau (não adianta colocar “Toddy” ou algo similar) e uma pequena colher de manteiga. Mantenha o fogo baixo e mexa com a colher de pau durante todo o tempo. Quando ele tiver formado aquela consistência que “desgruda” do fundo, hora de desligar o fogo (não deixe passar desse ponto senão ele adquire aquele gosto de queimado). Nesse momento derrame o conteúdo em diversas xícaras ou potinhos e deixe a generosa porção na panela para comer com a colher. Ele esfria rápido. Agora que esfriou, esqueça o que eu disse no caso do nhoque. Cada um por si e quem puder garanta o seu!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Quem quer casar com Dona Baratinha...

... que tem fita no cabelo e ações na caixinha?

Particularmente e sem deixar ninguém chateado eu digo que nunca gostei dessa história/música que em minha infância era tocada nem sei onde, talvez fosse um daqueles disquinhos que tocavam na vitrolinha que eu tinha. Se você não sabe o que é uma vitrola ou uma radiola, você é novo demais e não se divertiu ouvindo essa história musical da Dona Baratinha e outros hits da época, como “Nuvem passageira” e outros. A barata sempre foi um bicho asqueroso, desses que não merece nem sequer uma historinha musical, muito menos um que falasse de uma barata que guardava suas economias em uma caixinha e que por isso seria uma excelente “esposa”. Sinceramente, não sei quem criou algo assim.

Mas eis que me liga essa semana uma querida amiga e manifesta a surpresa de descobrir após uns sete anos de convívio, que eu trabalho na área financeira e especificamente com ações. Disse-lhe que fazia isso há mais de quinze anos. Primeira reflexão que fiz ao desligar o telefone depois de nossa agradável conversa foi a de que não posso deixar nenhum amigo às escuras sobre o que faço profissionalmente, pois posso perder a chance de colaborar com alguém que precise de ajuda, assim como penso que consegui fazer com ela nessa conversa.

Ela estava passando por uma época muito tensa, pois nos últimos anos guardou um dinheiro aqui e ali, na verdade se esforçando como uma batalhadora de primeiro escalão para gerar tais reservas. Contou que havia feito um tremendo ajuste nas contas e hábitos domésticos para que fossem possíveis as sobras, ajuste feito com a colaboração da família que conscientemente fazia um esforço com vistas a um futuro mais tranqüilo, e finalmente que nos últimos anos havia comprado ações com uma boa parte dessa reserva.

A carteira dela, baseada nos principais papéis da Bolsa, os chamados “blue chips”, acabaram apresentando uma excelente valorização ao longo dos anos que a deixou extremamente feliz e surpresa pelas possibilidades de ganho com ações. Ela vislumbrava essa possibilidade de que suas reservas lhe permitiriam ir mudando sua vida conforme seus objetivos e não mais conforme a necessidade se apresentasse. Estava certa.

Obviamente que as tais “blue chips”, que têm esse nome derivado das fichas (chips) usadas nas apostas em cassinos e no pôquer onde as de cor azul eram as de maior valor, não se comportaram como tal quando o tsunami da crise mundial passou pela Bovespa, e isso a deixou com a sensação de que poderia estar errada em relação a investir em ações, e que talvez até devesse vender tudo antes que não tivesse mais nada (já conhecemos esse pensamento em outras postagens, não é?). Na verdade ela não pensou isso, mas foi aconselhada por outra pessoa, certamente alguém ainda mais assustado do que ela.

Felizmente ela encontrou, antes de falar comigo, outro amigo em comum que entende de finanças e a aconselhou a não vender nada nesses preços, então estava preocupada, porém resoluta em manter as ações em carteira.

A conversa desenvolveu-se inicialmente na mesma linha da que tive com a Dona Maricota (ver postagem do dia 2 de novembro), e depois ela contou que havia aprendido com os pais dela sobre essa maneira inteligente de ir guardando um pouco sempre para depois poder contar com uma reserva adequada para as necessidades que a vida apresenta ou para as escolhas que podemos fazer quando temos tais reservas.

Não disse a ela, mas é importante ressaltar aqui que nem mesmo a maior crise dos últimos cem anos foi capaz de destruir o ganho proporcionado para aqueles que souberam ser sócios de boas empresas nos últimos anos. Tomemos como exemplo Itaúsa quatro anos atrás, a ação da "holding" que controla o banco Itaú, que custava R$ 2,40 e hoje, mesmo apanhando como gente grande, custa R$ 9,00 (chegou a valer R$ 11,75 meses antes). No caso das ações de Itaúsa, mais de 3,5 vezes o valor aplicado.

Vamos ver a Vale do Rio Doce, ação conhecidíssima dos investidores. Na mesma época do primeiro exemplo, custava R$ 9,70 e agora, devastada pelo terremoto mundial custa R$ 25,90. Essa variação é de 2,70 vezes sobre o valor inicial. Se eu pegar mais uma das conhecidas, a Petrobrás, dá algo muito parecido, R$9,00 com R$ 23,80 hoje, ou seja, 2,60 vezes.
Outras ações, de empresas menos famosas tiveram performances ainda melhores nesse mesmo período, tendo algumas delas criado novos milionários pelo mundo.

Mais impressionante ainda seria pegar as cotações de épocas de crise mais forte, como em 2002 onde o mundo acreditou que o Brasil iria naufragar após a eleição do presidente atual. Dá até vergonha de falar, então deixo para o leitor a tarefa de checar as cotações daquele ano e compará-las com as atuais, ainda que estejamos no fundo de uma nova crise.

Não é fácil fazer com que nossa mente tenha uma visão inovadora, de horizontes mais amplos sobre como devemos encarar a oportunidade de comprar uma participação societária em empresas de grande porte, talvez porque a maneira como muitos se aproveitam dessa oportunidade seja inadequada para um plano de longo prazo onde podemos construir uma reserva que nos permita fazer novas escolhas para a vida. É claro que esse é um tema que merece muito mais atenção. Voltarei a ele em breve.

Fiquei feliz que minha amiga já conhece o caminho, embora possa aprender muito ainda sobre como realizar essa jornada. Parece que certa mesmo está a Dona Baratinha, e deixo aqui minha homenagem a quem criou aquela historinha, pois no fundo é até instrutiva.~

E você, como está se preparando para essa jornada?

sábado, 13 de dezembro de 2008

O bobo e a corte do rei

Como sempre fazemos, é costume observar os demais com o objetivo de aprender algo que nos permita melhorar ou como acontece também, apenas ter um pouco da diversão oferecida pelos demais.

Na última vez que fui esquiar, enquanto descia a montanha observei alguns esquiadores com um gorro ao estilo "bobo da corte", você sabe aquele chapéu colorido, com várias pontas, eventualmente com guizos ou outros ornamentos em cada uma delas. Imagino que fosse para divertir o resto dos esquiadores, pois não pensei em nenhuma outra explicação. Divertia-me ver aquelas figuras passarem com aquilo na cabeça.

Recordei dos tantos filmes e peças que representaram essa figura do “bufão”, misto de um alegre e cômico poeta com um debochado observador das peculiaridades das cortes e dos reis, figura até musical, que divertia a casta nobre e a própria alteza, falando verdades e bobagens que ninguém tinha coragem de dizer àqueles que teoricamente eram os mais inteligentes e capazes da região.

Resumindo, temos de um lado, o bobo, que era aquele que seduzia os que do outro lado, sendo supostamente mais capazes, eram mantidos em um estado de contínua embriaguez psicológica enquanto por muitas vezes o tal do bobo se aproveitava da proximidade com a família real para seu próprio benefício.

Apresento-lhes Bernard Madoff, se é que vocês todos já não leram sobre a recém-descoberta fraude por trás de uma grande firma de gestão de fundos de investimento de Nova Iorque da qual ele era o dono. Não vou descrever o que todos já sabem, apenas recordar que era uma firma que estava no mercado desde a década de sessenta, com quase cinqüenta bilhões de dólares sob suas asas, com um gama enorme de clientes, desde pessoas físicas de muita riqueza a outros fundos e instituições financeiras do mundo todo.

Talvez o mais interessante dessa triste epopéia seja o fato de sua fraude ser a imagem perfeita daqueles golpes estilo “pirâmide”, ou seja, quando os que vêm em maior número vão sustentando os de cima, em um ciclo que pode ser ampliado indefinidamente até que não haja mais quem colocar embaixo, deixando à mostra o enorme buraco do esquema. Tinha uma empresa americana usando um modelo desses, vendendo produtos para o lar que chegou a ser uma febre aqui no Brasil uns dez ou mais anos atrás. Pois é, ele rentabilizava os de cima com o dinheiro dos de baixo, ou algo bem parecido com isso.

Incrível pensar como uma empresa desse tamanho pode manter tanta gente séria sendo enganada por tanto tempo. Mas tem explicação. Os rendimentos altos para o padrão da indústria americana de fundos, repetidos ano após ano sem que o gestor desse nenhuma explicação real de como obtinha tais ganhos nem divulgasse a composição das carteiras dos fundos eram condições que embora esquisitas como fossem não conseguiam diminuir a embriaguez causada pelos bons ganhos financeiros. Justifica-se o não justificável com um retorno do tipo “cala a boca”.

Tem gosto pra tudo, inclusive para o tipo de investidor que não se importa em conhecer como pensa o gestor de um fundo e conhecer como ele tem feito para entregar os resultados passados. Importam-se apenas em olhar a cota mensal e compará-la com os demais fundos, muitas vezes pulando de um fundo para outro, perseguindo a “cota perfeita”, mas sempre com atraso. É o mesmo pensamento daquele que fica mudando de fila no pedágio ou nos caixas do supermercado, sempre com a sensação de que tem que ser o primeiro, o melhor em qualquer ocasião, não admitindo que sua fila ande menos que a do outro. Você riu porque se lembrou de alguma ocasião que fez o mesmo? Tudo bem, nós ainda estamos lutando contra essa influência lamentável de nosso instinto.

Espero que o investidor que ainda esteja vivendo essa dificuldade, o faça apenas em supermercados ou nos pedágios, e que para seus investimentos conheça profundamente a visão que norteia o gestor, conheça bem seus pensamentos, seus objetivos e especialmente conheça-o pessoalmente, que possa estar com ele algumas vezes ao ano, olhando em seu olho para confirmar que ele cuida de seus recursos como cuida dos próprios. O tal do Madoff foi preso pelo FBI na 6ª feira passada. O triste não é os mais de 20 anos de cadeia que ele vai pegar mas sim o desespero de muitos que embriagados pelos vários anos de misteriosos bons resultados, haviam aplicado todos os recursos pessoais com ele.

Não existe ganho fácil, nem rápido e nem devagar, isso todos aprendem cedo ou tarde.

Fica para cada um a reflexão de quantas vezes somos tentados ao fácil. Se uma coisa eu aprendi nesses mais de quinze anos de mercado financeiro foi lutar continuamente contra esse pensamento que nos faz ver o bobo e achar graça, nos faz rir de suas perigosas melodias que enquanto seduzem, nos deixam embriagados. E se em algum momento nos descuidamos, pergunto:

- Quem é o bobo da corte?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Deus era brasileiro. Ainda é?

Ainda nem esfriou a outra postagem sobre Deus ser ou não brasileiro (ver postagem de 27/outubro), já comecei a ouvir novos comentários nos meios de comunicação sobre nossa acelerada caminhada para juntarmo-nos ao time dos países condenados, já que a crise não só chegou à nossas terras como causou os primeiros estragos. Será que Deus não era mesmo brasileiro?

Apenas nas últimas três semanas, a quantidade de dados econômicos e entrevistas publicadas dão o correto tom do ambiente mental em que submergimos, o que não é para surpreender ninguém que acompanhe com atenção o que acontece na economia real. Mas volto a repetir, ficou muito forte no mundo mental o pensamento do pessimismo. O que temos para apresentar em contrário? Algumas observações daquelas que provam a regra do "eu só vejo o que quero, ou o que os pensamentos me mandam ver".

Ligaram-me alguns clientes e amigos nos últimos dez dias com o discurso que o mercado estava cada dia pior, que não aguentam mais ver o mercado cair, que parecia não ter fim o sofrimento, e etc. Vou ser sincero, eu tive a mesma sensação de que o mercado estava piorando nas últimas semanas e que vinha caindo mais ainda, até que fui aos gráficos e tabelas históricas para saber o quanto daquela sensação estava estampada nos preços. Conclusão? Fazia quase dois meses que a Bovespa oscilava bastante mas não saia do patamar dos 35 mil pontos (não que esse patamar queira dizer algo), ou seja, nos últimos dois meses não só os preços não mais se deterioraram como estavam ainda querendo recuperar algum terreno, o que algumas ações conseguiram fazer timidamente à custa de outras, é claro.

Foram nessas últimas semanas que vieram à tona alguns dos piores indicadores econômicos que o mundo viu na atualidade, alguns deles rivalizando com crises já centenárias. Foi nesse mesmo período que "caiu a ficha" para a maior parte dos brasileiros. Então o que aconteceu para a manutenção desse patamar e que ainda permitiu a recuperação desses últimos dias?

Simples. Não se esqueça do que você ouviu quando era criança, que a Bolsa sobe no boato e cai no fato. Ora, se isso é verdade para um mercado que opera entre outras coisas, expectativas, o oposto precisa ser verdadeiro, e assim sendo, é sensato afirmar que o movimento que segurou a Bovespa naquele patamar por quase dois meses, impedindo uma queda maior, é o resultado de uma mudança, ainda que contida, no foco do observador, que deixou de olhar para os próximos seis meses e passou a mirar o segundo semestre de 2009 e adiante.

Não se embriague com o perfume doce desse otimismo em relação ao futuro pós seis meses, ele é sensato e fruto de uma análise realista, mas o mercado ainda sofrerá a pressão vendedora de muitos outros indicadores que serão divulgados nos próximos meses, tanto os de economia como os de resultado das empresas. Ué, agora te confundi, né? É para ser otimista ou pessimista?

É para ser realista, é para manter o rumo traçado e o olho na bússola. Vamos ter ainda muitas trovoadas, vamos ter mais encrencas nas economias reais dos países desenvolvidos e algumas na nossa, mas uma coisa ninguém pode esquecer. O mundo nunca realizou uma ação coordenada que lembrasse em pequeno esse gigante esforço governamental que estamos vendo nos quatro cantos. Nunca se planejou ou se preparou uma injeção de dinheiro novo como o que está sendo introduzido a partir de agora (muitos dos pacotes anunciados demorarão meses para serem aplicados efetivamente).

Ninguém sabe ao certo as consequências que essa montanha de dinheiro, direto e indireto, terá quando a crise passar. Talvez gere uma crise oposta, trazendo a necessidade de outras medidas para lidar, por exemplo, com o endividamento público que aumentará em muitos países agora. Outros problemas serão apontados e enfrentados oportunamente.

E se não bastassem as boas perspectivas para o longo prazo, para pós-crise, de quando em quando somos brindados com uma injeção de segurança, de sensatez e honestidade para com o povo brasileiro.

Estou falando do COPOM, que mais uma vez resistiu à bravata dos mentecaptos que não se cansam de pedir a queda do juro, como se a alta taxa com a qual o governo remunera o dinheiro que toma emprestado do mercado fosse fruto da má intenção de alguém. Parabéns aos membros do COPOM, que com essas atuações corretas, de acordo com o mandato que o povo avalizou, tem permitido que o país continue a gozar da boa reputação financeira e creditícia que tem.

Quem ainda duvidava se Deus era mesmo brasileiro, não tenha mais dúvidas. Ele não só é brasileiro como tem assento e direito a voto no COPOM!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O efeito "paralaxe" (Parte II)

(a parte I dessa postagem encontra-se logo abaixo, nesta mesma página)

Voltamos à imagem da paralaxe medindo a distância das estrelas e aplicamos o modelo ao mercado financeiro, especificamente à precificação das ações de empresas com capital aberto em Bolsa de Valores.

Sobre o pano de fundo contra o qual o observador mede a posição das estrelas, eu pergunto: você tem olhado para o céu noturno em sua cidade? Em caso afirmativo, o que tem visto? Se você respondeu que não tem visto muita coisa porque a luminosidade e poluição são impeditivos, eu lamento por nós todos e o máximo que posso aconselhar é uma viagem no próximo fim-de-semana. Ainda assim, nenhum de nós pode afirmar que pelo fato de não estar visível aos nossos olhos, não significa que o céu não tem aquele montão de estrelas que costumam aparecer nos documentários televisivos.

Uma analogia para a nossa análise financeira é possível. Nosso pano de fundo são os outros 6,6 bilhões de seres que habitam a Terra, número difícil de imaginar mas ainda grande o suficiente para impressionar qualquer um que resolva fazer uma conta para quantificar o que ocorre todo dia. Imaginem que esse povo todo consome algo, seja energia, alimentos, roupas, eletrônicos, serviços, móveis, automóveis, lazer, livros, educação, serviços de saúde, serviços de telecomunicação, tele e rádio difusão, etc. Sei que muitos deles não tem acesso a todos os itens acima, mesmo porque, se tivessem nós estaríamos enfrentando literalmente uma guerra global por produtos e recursos naturais, do tipo das que já ocorrem hoje em menor escala. Pois é, não importa se a crise é grande ou pequena, qualquer que seja, sucumbirá cedo ou tarde ao poder de consumo dessa massa. Ou então voltamos à "barbárie" do mundo das cavernas e cada um cuide de caçar sua própria comida.

As estrelas da nossa imagem são as empresas e suas respectivas ações, precificadas diariamente na Bolsa de Valores. Lembre-se que o estudo pela paralaxe exige que o observador faça suas marcações em duas posições diferentes porém conhecidas. Diremos que tomaremos a primeira medida na posição de quem observa apenas o preço de negociação de cada uma das ações atualmente. O preço por si mesmo não diz nada, apenas reflete o equilíbrio, ou falta dele, na oferta e demanda pelo ativo financeiro. Se recordamos que o essa oferta e procura se dá em virtude da disponibilidade de dinheiro no sistema, concluímos que o preço negociado em Bolsa apenas reflete o preço para a liquidação daquele ativo e sucessivo recebimento dos recursos equivalentes.

Na posição em que tomaremos a outra medida de distância encontramos a compreensão sobre o quanto a empresa e o setor no qual ela se insere foram e serão afetados pela crise atual. Obviamente que essa tarefa não é fácil, mas contamos, além de com nosso próprio conhecimento e experiência, com a grande quantidade de modelos aplicados por grandes e pequenos bancos, que fazem dezenas de análises cada um para tentar prever como será o comportamento de cada empresa dada uma nova condição econômica. O trabalho de ler e filtrar cada um desses relatórios é imenso, mas no final do processo, que se repete continuamente, é possível, quando se avalia um prazo de cinco anos ou mais, mensurar com alguma segurança o que essa empresa vai ter de oportunidades e desafios, e o consequente resultado financeiro para seus acionistas.

Finalmente temos a resultante da diferença entre as duas medições realizadas, e chegamos ao ponto final da aplicação do modelo.

Para avaliar quais empresas queremos ser sócios para o longo prazo utilizamos a visão que é conhecida como value investing, ou seja, a busca por ações que estejam sendo negociadas à preços inferiores ao seu valor intrínseco. Em outras palavras, oportunidades que se apresentam na diferença entre o preço praticado para aquela ação e o preço que a mesma vale como fração do "todo" que ela representa. O problema sobre essa medida é estimar o real valor intrínseco, e para ser mais preciso, afirmo que não pode haver um valor intrínseco real que seja único ou uma verdade absoluta, pois esse valor é sempre o resultado da avaliação que cada um faz, tanto dos ativos e passivos atuais , como do futuro fluxo de caixa da empresa. Alguns investidores tendem a atribuir maior peso para os ativos e passivos atuais do que ao fluxo de caixa futuro, alguns fazem o oposto e ainda existem os que consideram ambos.

O certo é que muitas ações de boas empresas estão em preços de barganha e estão em um ótimo ponto de entrada , não preciso falar das mais conhecidas que estão nessa condição, e se fosse falar das menos conhecidas, mas não menos interessantes, precisaria de algumas páginas. Simples, não? Espero que a paralaxe aplicada ao mercado tenha gerado várias reflexões e que você tenha chegado a boas conclusões.

Obs.: Sem consultar a internet ou a pessoa do lado, responda à nova enquete sobre as estrelas que está lá em cima, no lado direito desta postagem.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O "efeito paralaxe" e o mercado financeiro (Parte I)

Minha ausência nestes últimos dias deveu-se a um merecido período de férias em Muro Alto-PE. Se você ainda não visitou essa praia próxima de minha cidade natal, Recife, não sabe o que o Brasil tem de melhor. Mas como dizem por aí, há males que vêm para o bem...

Procuro sempre ter um livro à mão quando viajo, ou para as incansáveis horas de espera em aeroportos quando viajo a negócios ou para justificar uma longa pausa para degustar um charuto após o jantar, especialmente se o local for de generosa beleza e de clima agradável. Foi o caso do destino escolhido. Levei entre outras literaturas o sensacional Guia Ilustrado Zahar "Astronomia" que comprei acidentalmente um tempo atrás enquanto esperava um amigo no shopping. Ele se parece com aqueles também ótimos guias de turismo, plenamente ilustrados, editados pela DK e que provavelmente você tem ao menos um exemplar em casa. Se ainda não tem, o de turismo, o terá um dia.

O de Astronomia foi a melhor compra dos últimos anos,vale cada centavo de seu preço, pois contempla em um único volume, a medida exata do que um leigo como eu precisa saber sobre o universo, as teorias sobre sua origem, os fenômenos conhecidos, o sistema solar, e uma extensa parte sobre o céu noturno que podemos observar (sim, sei que aqui na cidade não se vê quase nada, mas você entendeu o sentido da frase). Talvez até te estimule a fazer uma viagem à Monte Verde ou outro lugar agradável de céu noturno escuro e estrelado.

O livro começa narrando uma breve história da astronomia, que com razão foi chamada da mais antiga das ciências. Desde a aurora da civilização o homem se esforça para compreender os complexos movimentos dos corpos celestes e suas relações com a nossa Terra, o que imagino ser sinal inequívoco da onipresente sensação de que precisamos entender qual é o nosso lugar no universo, na Criação, de que precisamos responder o porquê de nossa existência e acima de tudo, a busca pela marca divina de nossa existência humana. (Nesse momento eu fiz uma pausa longa e reli essas linhas acima algumas vezes, sugiro que faça o mesmo antes de continuar). Tenho a sensação que poderíamos parar por aqui e teria valido muito fazer essas reflexões e pensar um pouco sobre esses temas, afinal, se não formos pegos de surpresa assim os assuntos do dia-a-dia não permitem tais sensações, certo? Mas vamos voltar de nossa viagem e seguir o assunto enunciado.

Entre outras tantas revelações que me deixaram de boca aberta frente ao colosso que é nosso universo, me deparei com conceitos muito interessantes, primordialmente aplicados na astronomia e astro-física mas que podem ser usados analogicamente para outros assuntos, que pela razão deste Blog, usarei um deles para algumas reflexões sobre o mercado financeiro e sua atual crise. Apresento-lhe o "efeito paralaxe".

A medição direta da distância que nos separa de uma estrela baseia-se na paralaxe, ou seja, o movimento de objetos próximos contra um pano de fundo mais distante à medida que o ponto de vista do observador muda. Quanto mais longe estiver o objetivo ou estrela observado, menos parecerá se mover contra o "pano de fundo" de nosso céu cheio de estrelas.

Antes que você tenha a sensação de ter lido grego, olhe pela janela e observe um carro que passa na rua mais próxima e depois olhe bem para longe e observe algum carro em uma via distante. Será fácil observar como o carro mais próximo parece mover-se muito mais contra o pano de fundo de sua vista, o que está longe, parece mover-se menos, não é isso?

Se meu exemplo automobilístico atrapalhou mais do que ajudou, aqui está o conceito aplicado como em sua descrição no livro: note que o observador precisa mudar de posição em relação ao objeto observado e o "pano de fundo", o que no caso é feito utilizando-se as posições opostas que a Terra experimenta em seu movimento ao redor do Sol, gerando assim as duas semi-retas que mostram a paralaxe de cada estrela, consequentemente, a sua distância relativa à Terra.



No que essa imagem se assemelha à precificação de ativos em bolsa de valores? Ou ainda, em que medida esse conceito pode ser uma ferramenta útil na avaliação dos riscos e decisões de investimentos de uma carteira de ações?


Você já estava imaginando onde eu iria parar antes de passar para a (parte II) deste assunto, então o deixo por enquanto com essa imagem, os conceitos apresentados até aqui neste e nas outras postagens do Blog e espero que sua mente encontre-se com a (parte II) com muitas reflexões feitas e comentários para o desfrute de todos, afinal estamos aqui para isso, não?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A muralha da China e a jaguatirica

Poucas obras do homem podem ser vistas do espaço. Sabemos que os chineses não pensaram nisso quando decidiram estabelecer aquela que seria uma magnífica rede interligada de defesa que teve a propriedade de manter as invasões mongóis sob controle durante um bom tempo. Obviamente que chegaria o dia em que essa obra de engenharia não mais seria eficiente em cumprir seu objetivo, mas para a época em que começou a ser erguida, ela foi o pilar no qual o império chinês pode consolidar sua integridade física e surgir como potência desde então.

Não, não vou falar de outras coisas que podem ser avistadas do espaço, tipo as queimadas, o canal do Panamá, etc. Também não vou ceder à tentação de recordar outra linha construída para a defesa de um país na época da 2ª Guerra Mundial porque não quero fazer os franceses se envergonharem com tal recordação.

Os chineses têm essa sabedoria que os tem lançado, de tanto em tanto, na vanguarda da sociedade humana, seja pelas vias do conhecimento científico ou novamente depois de muitos séculos, pelas vias do poder econômico que eles voltam a empunhar.

Pensem no que significa um pacote de estímulos à economia da ordem de 580 bilhões de dólares americanos, especialmente voltado como é, para obras de infra-estrutura no país que tem uma clara visão do que é necessário prover para que a economia doméstica seja suficientemente forte para sustentar o crescimento que todos nós invejamos. Eu sei que é mais fácil implementar políticas eficazes de desenvolvimento quando se governa com mão-de-ferro, mas isso não tira o mérito da visão levada à realidade.

Mais impressionante do que um pacote como esse, que em época de vacas magérrimas se transforma em uma farta churrascada mundial, é o que tem acontecido internamente na China ao longo desses últimos dez anos.

Algumas mil cidades foram criadas nesse tempo, trazendo do campo para a zona urbana mais de 200 milhões de chineses; um zilhão (sim, com Z) de quilômetros de estradas foram criadas ou ampliadas para prover os canais de escoamento e de acesso aos novos centros produtores e consumidores; linhas de metrô transformando o cenário urbano de todas as grandes cidades; portos e aeroportos surgiram em número e velocidade que parecem piada; enfim, criaram ao longo desses anos um mercado consumidor interno que é um gigante, ou melhor, uma gigante rede de consumidores que agora, quando as economias que dependem intensamente das exportações sentem-se refém da crise global, essa rede protege a taxa de crescimento chinês para que ela não entre na zona de perigo. E o melhor? A China tem exportado esse modelo para os demais países de sua zona de influência, transformando toda a região.

O que isso tem a ver conosco? A demanda por nossos produtos básicos, alimentos, agricultura, energia e minério, não vão deixar de encontrar compradores ávidos e preocupados com suprimentos suficientes no médio e longo prazo. Esqueça os cavaleiros do apocalipse, esqueça a guerra psicológica que travam os compradores com os vendedores, esqueça os jornais e os incontáveis relatórios econômicos explicando o que vai acontecer daqui pra frente, pois quem lê muito disso tudo fica invariavelmente confuso frente às divergentes opiniões que vão do A até o Z, geralmente inventando novas letras no meio do caminho.

O Brasil caminha melhor do que sempre caminhou, não por conta de algum presidente em si, mas porque a economia real é muito maior e mais forte do que a caneta de nossos governantes. A fartura que o mundo viveu em termos de liquidez aliada à determinação de nossos empresários fez nascer a condição de lançar a massa no mercado consumidor, e quando o mundo absorver essa crise e iniciar a recuperação econômica, nós já estaremos nos beneficiando da muralha que se constrói aqui, que se não é extensa como a chinesa, é um considerável divisor de águas que tem lançado o país na velocidade que só os chamados “tigres asiáticos” sabiam imprimir.

Quem sabe um dia o mundo reconheça que na corrida dos felinos, a jaguatirica tupiniquim (nome cietífico: leopardus pardalis) está e estará, a cada corrida, disputando um lugar no pódium.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Conduzindo Miss Daisy

Estávamos no carro voltando para meu escritório. Eu sentado no banco do passageiro pensava sobre o ocorrido durante a última uma hora. Miss Daisy na verdade estava me conduzindo, pelo menos assim parecia. Na verdade...


A apresentação que fomos assistir foi muito interessante para mim, pois fui ouvir os administradores de uma grande e muito boa empresa, que admiro e sou acionista, sobre os resultados do 3o trimestre de 2008 e especialmente sentir como está o "mood" da turma sobre o cenário futuro e o que eles ouvem dos clientes. Como trunfo levei a apresentação de dois meses atrás para comparar e checar alguns pontos específicos.


Miss Daisy, senhora educada e nobre como é (você não se lembra do filme?) certamente não foi comigo apenas por conta do café-da-manhã que seria servido durante o evento. Foi para assistir, como acionista, sua primeira apresentação de uma empresa para seus investidores, atividade essa que é comum para todas as companhias que tem o capital aberto em Bolsa de Valores. Não se engane, Miss Daisy é empresária, sabe muito bem das coisas, só não conhece tão bem as entranhas do mercado de capitais, mas isso é questão de tempo.


Estrategicamente escolhi para sentarmos, duas cadeiras lá na frente, o que nos brindou com a presença dos palestrantes em nossa mesa enquanto todos desfrutavam do desjejum prévio ao inicio da apresentação. Obviamente comecei a encher o Gerente de R.I. (relação com investidores) de perguntas, o que o deixou sem muita chance de comer (não atrapalhou em nada o meu ritmo com o sanduíche de presunto no pão francês), mas ele foi gentilmente respondendo o que podia até que o Diretor Executivo da empresa também se sentou conosco, fazendo-me desviar a artilharia para o novo e atraente alvo. Recordei-o que estive na apresentação anterior e dos pontos que gostaria de comparar, pois a crise havia criado um abismo entre as duas datas. Cumprindo seu papel de gentil executivo de empresa listada em Bolsa, me respondeu algumas coisas que eu queria ouvir e não respondeu outras que eu não contava mesmo com respostas.


A apresentação fluiu muito bem e em 25 minutos ele abriu a sessão de perguntas e respostas para a qual eu só tinha uma. Ele gostou de ser recordado do assunto e discursou sobre um dos business que havia "esquecido" de comentar na apresentação e que trouxe notícias boas.

Foi interessante chamar a atenção de Miss Daisy para alguns pontos durante a apresentação, e ela mesma ia abrindo um olhão atento para os números astronômicos da empresa que até outro dia ela não conhecia. Todas as linhas do balanço trimestral pareciam douradas de tão bons que eram os números, até eu me impressionei com alguns, de novo. Fomos embora felizes.

Enquanto esperávamos o carro dela (sim, ela dirige, e bem) eu ia acompanhando as reflexões que faziam sua mente se surpreender, mesmo com toda a experiência de vida que ela tem, com essa face do mercado de capitais, a face que podemos chamar de "causal", onde ocorrem todas as transações comerciais, onde se evidenciam as mútuas dependências entre empresas, setores, países e no final, entre as empresas e o mercado financeiro.

Era como se ela estivesse se rendendo à realidade que eu vinha lhe instruindo há muito tempo, mas que como ela mesma diz "demora pra gente entender, é outro mundo". E essa é a impressão que ela teve quando recordou um dos slides da apresentação que mostrava a enormidade que o preço da ação da empresa havia caído este ano, para o qual exclamou: "Como é possível que essa empresa tenha suas ações negociadas com essa queda toda?"

O que exigiu mais uma vez a resposta que ela não aguenta mais ouvir de mim:
"O preço de uma ação em Bolsa representa apenas o preço para a liquidez daquele ativo com liquidação financeira em três dias, muitas vezes não estando ligado ao valor proporcional que cabe àquela fatia sobre o valor real da empresa, seja pelo seu fluxo de caixa futuro ou até mesmo pelo valor patrimonial vigente."

Quem entende isso, e ela entendeu faz tempo, compreende porque uma ação negociada em Bolsa pode ter seu preço variando 10% para cada lado em dois dias de pregão. Nunca viu ninguém desesperado, precisando de dinheiro vendendo algo?

Hummmm, você acha que essa explicação não justifica a volatilidade? Então encontra um comprador para sua casa que aceite fechar negócio nos próximos vinte segundos com garantia de lhe entregar o dinheiro daqui a três dias. Se encontrar nessas condições, e imagine o preço que seria a oferta, não vende pra ele não, eu pago um mil reais a mais, vende pra mim!